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Amazônia Jornal Edição de 03/05/2009
Novo Enem motiva debates no estado
Vestibular unificado divide alunos, professores e gestores de ensino
GUTO LOBATO Da Redação
Se você é estudante ou professor de Ensino Médio - ou mesmo conhece ou é parente de algum -, provavelmente ficou preocupado ao saber da nova proposta de vestibular lançada ao início do mês passado pelo Ministério de Educação (MEC). Não é à toa: além de gerar mudanças na estrutura dos processos seletivos de universidades federais de todo o País, o chamado novo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) exigirá ajustes na lógica de preparação dos candidatos a uma vaga no ensino superior.
Do formato das questões aos critérios de ingresso, o exame unificado tem motivos de sobra para levantar discussões dentro do espaço escolar.
O novo Enem - que permanece sem título definido - é anunciado como a maior revolução no vestibular brasileiro desde o ano de sua criação, 1911. A razão para tal é que, assim que for adotado por alguma universidade, ele passa a pôr no mesmo patamar de concorrência todos os cerca de 5 milhões de vestibulandos brasileiros, sendo que as notas deles podem ser submetidas à aprovação em cursos de até cinco universidades. Estas ainda podem optar pelo uso de outra etapa avaliativa, complementar ao exame.
Em resumo: assim como um paraense poderia fazer a prova em Belém e escolher entrar na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) por ter boa nota, um paulista poderia ingressar na Universidade Federal do Pará (UFPA) usando a nota que tirou ao fazer o exame em São Paulo, por exemplo. Outro diferencial diz respeito ao conteúdo: ao invés de questões ligadas a disciplinas isoladas, o exame vai valorizar a análise crítica do aluno e sua capacidade de relacionar assuntos. O MEC ainda não precisou o conteúdo programático da prova, mas o que se espera é uma evolução das questões multidisciplinares do Enem (veja quadro).
Apesar de ainda não ter todos seus meandros divulgados, o novo Enem já é de conhecimento de vestibulandos, professores e coordenadores de escolas e cursinhos do Pará. As avaliações são as mais variadas possíveis: há quem ache que a concorrência nacional incentivará o maior preparo dos alunos, há quem veja o exame como mais uma ferramenta que desrespeita as desigualdades regionais de acesso e qualidade da educação.
Ao ser questionada sobre a possibilidade de adesão ao vestibular unificado no Pará, a professora de Ensino Médio Inês Pereira destacou que o aluno poderá ser beneficiado de várias formas. 'Há o lado da competição com alunos mais bem preparados de outras regiões, é verdade, mas o novo Enem vai ajudar o paraense', avalia. 'Os conteúdos serão padronizados e a prova, unificada, o que fará com que o aluno fique menos sobrecarregado e tenha tempo para se preparar de forma menos apressada', garante.
A mesma opinião é seguida pelo professor de Matemática do Ensino Médio Walter Luiz. Para ele, o novo Enem ainda ajudaria o aluno a desenvolver o espírito competitivo e se preparar para concorrer com o resto do País. 'A unificação vai gerar problemas imediatos de desigualdade no nível dos candidatos, claro, mas, se houver uma educação decente, não há com o que se preocupar. O importante não é o número de concorrentes, e sim a preparação', analisa.
UFPA, Uepa e Ufra ainda não vão aderir Uma coisa que pode tranquilizar os que chegam ao 3º ano do Ensino Médio até o ano de 2011 é que, até agora, tanto a Universidade Federal do Pará (UFPA) quanto a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) não figuram entre as 51 federais interessadas em adotar o novo Enem de imediato. Da mesma forma, a Universidade Estadual do Pará (Uepa) já sinalizou não estar disposta a abrir mão de seus processos seletivos (Prosel e Prise) para aderir à proposta do MEC, que também é optativa para as instituições particulares e estaduais.
Em uma reunião realizada no último dia 23, o Conselho Universitário da Ufra decidiu provisoriamente não aderir ao processo seletivo do MEC. A ideia é que falta um 'aprofundamento da discussão, reunindo a comunidade interna e externa à instituição, para que se possa ampliar as perspectivas sobre o assunto'. Já a decisão da Uepa, segundo o pró-reitor de Graduação da instituição Neivaldo Oliveira Silva, tem a ver com o fato de que a mudança no método avaliativo demanda um debate sobre os prós e contras da ideia em relação ao vestibular convencional.
'A Uepa trabalha historicamente com o Prise e Prosel, então não é algo que possamos mudar da noite para o dia. Mas estamos atentos a esse debate', desconversou, reforçando que alguns dos pontos mais polêmicos do novo Enem' precisam ser considerados.
Conselho da federal só deve se decidir no segundo semestre Já na UFPA, instituição paraense que centraliza os debates sobre o novo Enem, a questão tem rendido muita polêmica. Em reunião no último dia 16, o Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe/UFPA) decidiu não aplicar o modelo até 2010, já que o Processo Seletivo Seriado (PSS) já está em curso para milhares de alunos de Ensino Médio. As mudanças no PSS, no entanto, já estariam em pauta de discussão mesmo antes de o MEC anunciar sua proposta, segundo a assessoria da instituição.
Duas soluções foram elencadas ao final da reunião e permanecem em aberto: ou a UFPA não adere ao novo Enem, ou faz dele uma das etapas de avaliação do vestibular da instituição - mesmo assim, somente a partir de 2011. A decisão final da UFPA só será divulgada no segundo semestre, mas alguns conselheiros já têm opiniões bem formadas - é o caso da Coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Sobre Educação Superior (GEPS) da universidade, a socióloga e mestre em Educação e Políticas Públicas Vera Jacob.
Dotada de um olhar bastante crítico em relação ao exame, Vera afirma que as falhas do antigo Enem se repetirão no novo método, só que em maior intensidade. 'Alguns dados do Enem mostram que o problema está na formação do aluno. Das maiores notas da prova, só 8% foram tiradas por alunos de escolas públicas', avalia. 'Ao invés de gastar rios de dinheiro com novos exames e ideias mirabolantes, o governo devia mesmo investir nesse aluno, dando a ele isenção de taxas e subsídios mínimos para que ele concorra de forma justa com um aluno da rede privada', completa a socióloga.
Segundo ela, é impossível fomentar a ideia de concorrência nacional enquanto o Pará mantiver sua posição nos relatórios do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Brasil (IDEB), o indicador mais confiável da qualidade de ensino do Brasil. Nele, o Estado aparece com a segunda pior média do país, precedido apenas por Pernambuco.
Mudanças no preparatório Não só alunos vão ser submetidos a mudanças caso o novo Enem passe a vigorar nos próximos anos nas universidades paraenses. Por conta das mudanças de conteúdo, toda a estrutura de Ensino Médio e dos cursinhos preparatórios do Estado teria de ser adaptada ao formato do exame, que terá mais questões e uma abordagem menos voltada à memorização, segundo o MEC. Tanto no ensino privado quanto no público, no entanto, ainda não há plano de mudanças, já que nenhuma adesão ao novo método foi formalizada pelas universidades paraenses.
Funcionária de uma escola privada que oferece Ensino Médio e cursos pré-vestibular, a orientadora pedagógica Viviane Pitman diz que, mesmo assim, já vem sinalizando aos alunos a mudança de eixos do vestibular brasileiro. 'Mesmo nos vestibulares normais, a ideia do ‘decoreba’ já soa ultrapassada. É fato que a formação do aluno não pode mais ficar só na aquisição de conhecimentos em sala, mas sim ao uso deles para a avaliação e o raciocínio crítico', avalia. |